Por Rui Ribeiro, Diretor-geral da IPTelecom

A primeira coisa que faço nas minhas palestras, aulas, eventos, reuniões, encontros pessoais, ou outro tipo de relação interpessoal, quando o tema da transformação digital surge no debate, é dizer o que não é: transformação digital não é a digitalização do papel!
Ao longo dos meus vinte anos de atividade empresarial, estive envolvido em vários projetos de digitalização do papel, em particular na primeira parte desta minha (ainda) curta carreira profissional, vi muita digitalização acontecer com ganhos de eficiência na empresa bastante baixos e com utilizadores a não entenderem as razões daqueles projetos.


Sou um filho da revolução, por isso um exemplar da fase final da Geração X, que viveu o nascimento do computador pessoal como uma revolução (e uma festa) ao vê-lo entrar em casa (ainda me lembro da marca do meu primeiro PC); que viveu o Timex 2048 ou o ZX Spectrum como o espetáculo de jogos eletrónicos. Sou aquele que agora tem em casa quatro filhos, dois adolescentes e dois na sua pré-infância escolar. Onde os mais velhos já não esperam pela hora da novela Roque Santeiro ou dos Jogos Sem Fronteiras, e muito menos estão um dia inteiro a ver o Natal dos Hospitais, pois veem a sua série quando querem no Netflix ou jogam FortNite na consola online e ouvem/veem os seus artistas em podcast ou no Youtube. Já as mais novas, usam (ainda) o iPad para verem o Youtube ou o Panda, usam a TV (ainda sem touch, com muita pena delas, dada a quantidade de toques que dão no ecrã), não para ver aos sábados ou aos domingos, às 8h da manhã, a Heidi ou o Rui, o pequeno Cid, mas para facilmente também escolherem o seu perfil no Netflix e verem a Peppa Pig ou as Winx, ou verem na app Youtube da TV a Shakira ou a Beyoncé. Enfim, uma casa decorada pela Geração X, onde vive a Geração Z (1990-2010) e a nova Geração Alpha (pós2010).
Isto é, sou de uma geração que viveu no analógico, vive no consumo digital e viverá a introdução da robotização no dia-a-dia do cidadão comum. Em termos práticos, a aceleração de processos humanos está a ter uma velocidade brutal, onde tudo é mais rápido a aparecer e a desaparecer, onde os desafios da educação e da aprendizagem são maiores, tornando difícil acompanhar esta aceleração por uma grande parte da população (pela sua inaptidão para as tecnologias ou pelos fenómenos da infoexclusão motivada por diversos fatores).


Vivemos uma total transformação digital em Portugal e no mundo, onde o gesto de pegar no telemóvel para obter informações é já quase automático. Isto é, a maturidade das tecnologias fez com que o próprio indivíduo transformasse as suas relações individuais e de grupo numa quase osmose, dada a naturalidade do uso das tecnologias no seu dia-a-dia.
No mundo empresarial, esta evolução e velocidade de acontecimentos está um pouco mais atrasada. A maioria dos processos de negócio ainda é implementada por líderes da Geração X, cujo modelo de raciocínio e de aprendizagem não foi naturalmente realizado com a tecnologia embebida, isto é, a receita usada em muitos projetos de sistemas de informação continua a ser o de: “onde está o papel, vamos mudar para uma base de dados e usam-se uns formulários”. Ao invés, deve-se olhar para o processo de raiz, como uma folha em branco e determinar à data de hoje como fazer, com a tecnologia que temos à nossa disposição. O mundo empresarial está a sofrer alterações, por vezes radicais, com grandes mudanças estruturais, onde o surgimento de uma nova geração empresarial de startups, de empresas que souberam visionar a transformação de líderes tecnológicos, está a criar disrupções no mercado e a trazer velocidade e agilidade incomparavelmente maiores. Muitas empresas ficarão para trás e muitas pessoas que não estejam motivadas para a mudança serão afastadas. Este é um dilema social que não é fácil, não tem solução direta e imediata. Os trabalhadores mais velhos estarão naturalmente mais desprotegidos.
Portugal tem hoje este cenário integralmente implantado no seu ecossistema. Tem um setor empresarial formado por 99% de PMEs (PORDATA, 2018) , traduzindo-se muitas vezes em empresas de teor familiar, cuja gestão ainda não é suportada em tecnologia, nem os seus funcionários têm contacto na empresa com modelos de gestão tecnológica. Assim, o paradigma da transformação digital em Portugal passa sobretudo pela transformação dos próprios líderes (que carecem de reciclagem em termos de novas metodologias de gestão associadas ao uso de sistemas de informação) ou pela passarem da gestão das empresas às novas gerações, capazes de melhor compreender o fenómeno atual: concorrência nova e disruptiva, cuja velocidade de aquisição de novos clientes é muito superior e com custos de estrutura e de venda muito inferiores. Veja-se, por exemplo, o que é a sapataria personalizada na BaixaChiado que vende exclusivamente a quem passa na rua ou à sua clientela privada, e a sapataria personalizada Undandy, cujo fator de qualidade é exatamente o mesmo, mas onde a dimensão potencial do seu mercado é “o mundo”, com uma estrutura de custos igual ou inferior. De notar que a transformação digital está associada à globalização da economia, multiplicando-se exponencialmente a quantidade de concorrentes aptos a prestar serviços no nosso país, bem como de potenciais clientes disponíveis para serem servidos.


As empresas portuguesas capazes de garantir uma agilidade interna nos seus processos, tendencialmente mais eficientes recorrendo a tecnologias e reformulação de processos de forma escalável e também modular, poderão também elas alargar mais os seus mercados potenciais de atuação. Um processo correto de transformação digital começa “numa folha em branco”, sem qualquer constrangimento sobre “o que existe”, nem sobre qualquer tecnologia.

Transformar digitalmente uma empresa é fundir a empresa com novos modelos de negócio, que podem inclusive ser disruptivos perante os usados até então. Uma vez mais, a liderança é fundamental, pois a visão é essencial.
Um CEO desta era de transformação digital, tem de ter um conjunto de competências muito além das da gestão tradicional. Tem de ter obrigatoriamente um conhecimento tecnológico e de gestão de sistemas de informação cada vez mais aprofundado, capaz de entender como transpor as suas visões para um plano de processos de negócio suportado pela tecnologia ou suportado em técnicos que sabem de tecnologia. Assim, às competências base de um CEO do século passado, junta-se a competência tecnológica.

Um CEO só realizará a transformação digital na sua organização se não se esquecer da competência de liderança essencial que é a aproximação direta e de motivação dos seus colaboradores. Não basta dar boas regalias monetárias para garantir produtividade individual e de grupo, é essencial que se saiba dar um propósito efetivo e se saiba partilhar uma visão, uma missão.